A interrupção antecipada do fluxo da cachoeira Véu de Noiva, em Cantá, transformou a temporada de turismo de 2026 em um período de perdas para trabalhadores e empresários locais. Situada na Serra Grande, a aproximadamente 50 quilômetros de Boa Vista, a atração sazonal costuma receber visitantes entre maio e o início de setembro. Neste ano, porém, já estava sem água em julho.

O cenário foi relatado em reportagem da Mongabay publicada pelo UOL. Além de reduzir as visitas, a falta de chuva dificultou a navegação no rio Branco, utilizado no acesso ao destino e responsável pelo abastecimento da capital roraimense.

Temporada menor reduz receitas

Proprietário da fazenda onde fica a cachoeira, Ivaldo Araújo afirmou que, em condições normais, a alta temporada se estende por cerca de cinco meses e atrai, em média, 6 mil pessoas. Com apenas três meses de chuva, o público caiu pela metade. Sua estimativa de prejuízo é de aproximadamente R$ 500 mil.

O guia Fredson Guedes, de 55 anos, conhecido como Tarzan, também viu os ganhos diminuírem. Antes, recebia R$ 1.200 por semana trabalhando aos sábados e domingos. Com o encerramento antecipado das visitas à queda-d’água, passou a obter cerca de R$ 800, recorrendo a outras atividades.

“Eu me adapto: faço passeios para as praias, alugo caiaques e pranchas de stand up e organizo trilhas, seja qual for o dia da semana”, disse à Mongabay.

A técnica em turismo e empresária Elen Dias ressaltou que o impacto alcança outros negócios. “Por trás de cada passeio estão barcos, guias, transportadores, restaurantes, hospedagens e o comércio local”, afirmou.

Chuvas sustentam a cachoeira e a navegação

Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) citados na reportagem, as precipitações em Roraima ficaram, de maneira geral, abaixo das médias históricas ao longo de 2026. O desvio também atingiu junho e julho, meses tradicionalmente chuvosos.

O geólogo Fábio Wankler, professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR), explicou que a cachoeira depende da reposição de água em falhas e fraturas das rochas e nos solos rasos e úmidos do alto da serra. A floresta contribui para reduzir a velocidade de evaporação, mas a manutenção desses reservatórios naturais exige chuva.

No percurso realizado pela equipe da Mongabay no fim de julho, bancos de areia e áreas rasas exigiram cuidado durante a navegação. Na volta, a embarcação chegou a encalhar, evidenciando os efeitos da redução do nível do rio Branco.

El Niño amplia preocupação com água e incêndios

Wankler relacionou as alterações ao chamado “super El Niño”. Conforme a reportagem, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) atribuiu ao episódio de 2026 uma probabilidade de 75% de ser o mais intenso desde 1950.

Associado ao aquecimento das águas do Pacífico Equatorial, o fenômeno ganhou força a partir de junho e se intensificou em agosto. A previsão apresentada é de efeitos até o início de 2027, com mudanças na distribuição das chuvas. Entre os riscos apontados pelo professor estão:

  • Aumento de queimadas e incêndios florestais;
  • Escassez hídrica, com possibilidade de desabastecimento;
  • Prejuízos à produção agropecuária;
  • Impactos sanitários relacionados à fumaça dos incêndios.

Estado anuncia medidas de prevenção

No início de setembro, o governo de Roraima decretou situação de emergência por 180 dias e instituiu um gabinete integrado. Entre as ações anunciadas estão a ampliação do efetivo de brigadistas para os 15 municípios e a perfuração de poços artesianos.

Em meados daquele mês, uma equipe do Ministério da Saúde esteve no estado para avaliar a capacidade de resposta dos serviços aos efeitos da seca. Segundo o governo federal, até 27 de agosto haviam sido contabilizados 87 focos de calor, recorde para agosto na série histórica de Roraima. A marca anterior era de 78 ocorrências, em 2023.

Para Wankler, a resposta precisa incluir modernização da gestão hídrica, alertas antecipados, planos de contingência e apoio à recuperação econômica. Ele também defendeu a diversificação de renda nas comunidades dependentes de uma única atividade produtiva.

Com informações de UOL.